Cheia histórica no rio Negro põe em risco segurança alimentar de comunidades

Intensidade e persistência da estação chuvosa na Amazônia refletem impactos das mudanças climáticas na região; 16,6 mil famílias amazonenses sofreram perdas agrícolas

Por Aloisio Cabalzar e Juliana Radler

O rio Negro chegou à marca de 29,98 metros em Manaus e ultrapassou nesta terça-feira (01/06) a cheia recorde de 2012, que era de 29,97 metros, de acordo com medições feitas há 119 anos. Sete das maiores cheias do Negro ocorreram nos últimos 12 anos, o que indica um agravamento dos impactos das mudanças climáticas na região. As inundações recordes destruíram roças de comunidades instaladas nas cabeceiras dos rios e prejudicaram, no total, pelo menos 16,6 mil famílias, segundo o governo do Amazonas.

A pesquisadora responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico do Amazonas, Luna Gripp, do Serviço Geológico do Brasil, em Manaus, afirma que as cheias vêm se intensificando nos últimos anos.

“Observamos uma mudança no padrão. Em Manaus, por exemplo, a grande cheia havia sido em 1953. Ela só foi ultrapassada em 2009, mais de 50 anos depois”, explicou. “Então, em 2009, entendeu-se que, a cada 50 anos, seria o período de retorno desse evento”. No entanto, como ressalta Gripp, três anos depois um novo recorde foi batido. “Se consultarmos a base de dados do porto de Manaus, sete das maiores cheias aconteceram de 2009 para cá. Sem dúvida, indica uma mudança no comportamento. São eventos cada vez mais extremos e frequentes.”

A Prefeitura de Manaus construiu mais de cinco mil metros de pontes provisórias de madeira, em uma operação contra enchentes denominada “Cheia 2021”. A Defesa Civil do Amazonas alertou que 58 dos 62 municípios do estado enfrentam problemas socioambientais com a inundação e cerca de 450 mil pessoas foram diretamente afetadas, o que representa em torno de 10% da população amazonense.

“Estamos vivendo realmente um momento muito atípico. Neste ano, o desastre da inundação ocorreu de forma generalizada. Praticamente todos os municípios ou boa parte dos municípios que compõem nossas calhas estão sendo afetados”, alertou o secretário executivo da Defesa Civil do Amazonas, Francisco Ferreira Máximo.

As contínuas e excessivas chuvas de 2021 em toda a bacia hidrográfica do rio Negro e na Amazônia, inundando diversas cidades, ameaçam as comunidades instaladas nas cabeceiras dos rios, dificultando as atividades agrícolas — essenciais para a segurança alimentar. “Isso prejudica muito a capacidade de resiliência das comunidades. Uma coisa é acontecer um evento catastrófico a cada 50 anos. Outra é praticamente todo ano”, enfatizou Gripp.

Balanço divulgado pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam) indica que 16,6 mil famílias amazonenses sofreram perdas na produção agrícola devido às enchentes e entre as culturas mais afetadas estão a de bananas, hortaliças, mamão e mandioca. O prejuízo já soma mais de R $189 milhões. O governo estadual está cadastrando as famílias afetadas para o pagamento de um auxílio.

Oscilações Intra-sazonais

Maria Assunção Faus da Silva Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), explica que os ventos que vão de nordeste a oeste — do Atlântico até a cordilheira dos Andes, na Colômbia — estão mais fortes e persistentes. Por isso, as chuvas estão acima da média nos últimos anos.

O fenômeno tem a ver com o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, na região da costa do norte do Brasil, e também com outra perturbação, muito intrigante, dos padrões das oscilações intra-sazonais. Provenientes da Indonésia, as oscilações geram, a cada 15 ou 30 dias, pulsos que influenciam substancialmente a dinâmica atmosférica, inclusive numa certa variação das chuvas, que se deslocam para a região mais central do continente, levando mais umidade para o centro e sudeste do Brasil.

Segundo Assunção, as oscilações intra-sazonais não acontecem mais desde o ano passado, em razão de outras mudanças na estratosfera (situada entre 20 e 30 quilômetros de altura), provavelmente relacionadas às mudanças climáticas. Foco de pesquisas e discussões, o fato é que o excesso de chuvas na região amazônica está associado à escassez no centro e sul do país. Em 2014, essa mesma sequência de eventos provocou grandes inundações no Acre.

Monitoramento nas comunidades indígenas

Nas comunidades do médio e alto rio Negro, os primeiros meses do ano são muito importantes para as atividades produtivas e de manejo das roças. Após a enchente de Boiuaçu (‘Jararaca’, entre os povos Tukano), que acontece entre novembro e dezembro, períodos chuvosos se alternam nos quatro primeiros meses, com repiquete (mudança súbita) do rio, quando acontecem o ajuntamento e a reprodução de várias espécies de peixes, como os aracus, e períodos de estiagem, que podem durar até duas ou três semanas, como aqueles denominados pelos povos do rio Negro de ‘Verão de Pupunha’, ‘Abiu’ e ‘Umari’.

Os veranicos, quando não chove, são os principais períodos do ciclo anual da agricultura. Muitas famílias se programam para queimar pequenas clareiras de mata primária, derrubadas algum tempo antes, para colocar seus roçados. As roças feitas em derrubada de mata primária são mais diversas e podem ser usadas por mais tempo do que aquelas feitas do corte de capoeiras (matas rasteiras).

Em 2021, porém, o excesso de chuvas perturbou o calendário econômico das comunidades, inviabilizando essa importante etapa do manejo agrícola. Para piorar a situação, além de não poderem queimar as áreas novas para agricultura, as famílias perderam roças já formadas.

Com apoio do Instituto Sociaombiental (ISA), agentes indígenas de manejo ambiental (AIMA), agentes comunitários que fazem monitoramento ambiental e climático (ver BOX abaixo), estão acompanhando e reportando os últimos acontecimentos nas comunidades da bacia hidrográfica do rio Negro.

Em toda a região, o excesso de chuvas é um problema. No alto Tiquié, próximo à fronteira do Brasil com a Colômbia, Gabriel Barbosa, professor e pesquisador comunitário makuna, relata que todo dia está chovendo. “Começou a chover mais no dia 2 de maio, teve piracema, e o rio continuou subindo. Nova enchente deu no dia 14 de maio de novo, encheu demais já, passando do nível normal.”

Segundo Gabriel, a chuva segue e, consequentemente, o volume do rio. “Aqui no alto Tiquié não teve nenhum verão no ano passado, e nesse ano também não. De janeiro até agora em maio não teve verão, só chuva, não dá pra queimar roça, está ficando cerrado de novo, as roças derrubadas não deram pra queimar mesmo, é muito difícil plantar maniva”, afirma. Chovendo todos os dias, “o capim e o mato baixo crescem rápido, por isso não estamos conseguindo plantar bem aqui na região, porque não dá para queimar para a roça.”

Dinâmicas atmosféricas em escala global, afetadas pela magnitude da ação antrópica (humana) no planeta, acabam gerando desequilíbrios mesmo nas regiões mais conservadas da floresta amazônica. Segundo Gabriel Barbosa, antigamente, a enchente acontecia de acordo com a constelação. “Mas agora já mudou. Hoje em dia, enche, quando está secando, depois de dois dias, já enche de novo. Os velhos conhecedores estão dizendo que atualmente mudou muito: as florações, frutificações, enchentes, piracemas, revoadas de saúvas e maniuaras, não estão acontecendo no tempo determinado. As pessoas, as gerações, mudam, por isso também muda o clima.”

Adão Barbosa, morador da comunidade e que costuma manter muitas roças, contou ao ISA que o rio está permanentemente cheio. “Não para de chover, todos os dias, todas as noites. Por isso, em nosso trabalho de roça, não conseguimos queimar, agora está tudo cerrado, por isso nosso trabalho está um pouco quebrado. Quando dá verão, a gente queima e faz plantação, planta maniva e todas as nossas plantações, mas não deu verão para nós”, lamentou.

Descendo o rio Tiquié, em seu médio curso, está situada a comunidade de Pirarara que, junto com São Pedro, compõe um conjunto de cerca de 50 comunidades situadas na bacia do principal afluente do rio Uaupés — o principal formador do rio Negro. Diferentemente do alto Tiquié, Pirarara está numa área de igapós e lagos, com maior produção pesqueira, mas também com terras firmes, boas para roças.

Vilmar Azevedo, que é AIMA da comunidade, relatou as dificuldades vividas: “o pessoal está reclamando muito. A pesca está um pouco difícil. Não encontramos daracubi (isca) e os peixes estão ficando mais ariscos. Está ficando mais difícil pegar em maior quantidade.”

Outro morador, Dagoberto Azevedo, relata que a enchente alagou até as partes mais altas dos igapós, as ilhas. “As roças, como estão em áreas mais altas, não foram prejudicadas”, disse. Uma das casas, que fica na parte mais baixa da comunidade, chegou a ser alcançada. “Os igapós estão cheios e os pescadores estão procurando os peixes desse ambiente, peixes de couro noturnos, como os daguirus. Como está tendo bastante peixe nos igapós, também apareceram muitos piuns, que picam e incomodam as pessoas”, contou. Outro fenômeno observado, próprio do rio cheio, é a subida de piabas, um tipo de peixe.

Rio Uapés e Içana alagados

Descendo além da foz do Tiquié e já no Uaupés, outro AIMA tem registrado em detalhes a enchente. Rosivaldo Miranda, pira-tapuya da comunidade Açaí, muito conhecida pelos viajantes desse rio, afirma que em maio a água subiu bastante. E deve seguir enchendo. “Já tem muitos igapós e os daracubis já subiram. A pescaria está boa para os peixes da noite. Peixe do dia está meio escasso, mas ainda dá pra conseguir para a família e um pouco para venda. O sol não tem sido favorável, sempre com muita chuva. Está dando muito açaí do igapó, já maduro, até fizemos dabucuri de açaí e peixes no dia das mães”, falou. Onde mora, várias roças já foram inundadas. Na semana passada, Rosivaldo viajou rio abaixo e viu comunidades, como Uriri, já alagadas.

A bacia de outro importante formador do rio Negro, o Içana, situado mais ao norte, também tem sido assolada por intensas chuvas, com alagamentos de roças em algumas comunidades. No alto Içana, já na fronteira com a Colômbia, um conjunto de 12 comunidades (entre Pana-Panã e Jerusalém) são mais vulneráveis pela própria escassez de terras firmes, o que deixa poucas opções para as famílias colocarem seus cultivos.

“Muitas vezes, nas proximidades das comunidades, não há solo fértil, que a gente chama de ‘terra firme’. E, quando as pessoas perdem uma roça, a única que eles têm, sentem muita dificuldade. Acabam indo lá no centro do mato para poder arranjar uma nova terra firme, onde possam também abrir um novo roçado. Demora muito também para crescer a maniva, chegar a amadurecer e ter mandioca. Isso afeta muito na vida dessas pessoas, que estão tendo roça alagada com a enchente do rio”, explicou Tiago Pacheco, presidente da Organização Indígena Koripako do Alto Içana (OIKAI).

O alto rio Içana, uma das áreas de mais difícil acesso da região, já passou do nível dos anos anteriores, alerta Tiago. “Lembrando que, em 2014, encheu muito o rio, mas já passou esse nível agora. Algumas roças alagaram e as comunidades próximas do rio estão quase no nível crítico para elas. Vamos esperar que daqui para a frente baixe o nível do rio no alto Içana.”

Como a maior parte dos solos nessa região, ou é arenosa, ou igapós, há pouca terra firme onde os moradores poderiam abrir roças. Eles acabam plantando fora do alcance do rio ou muito distante das comunidades. Com a inundação, mandiocas e outros tubérculos são encharcados, amolecem logo, e depois apodrecem. Perdida a roça, uma família não tem mais como produzir farinha e beiju por exemplo, que são a base da alimentação, relata Tiago.

O mesmo tem acontecido em outras regiões do Içana. No rio Aiari, seu principal e mais populoso afluente, que desagua em seu médio curso, a situação está mais grave, com mais prejuízo para os agricultores indígenas. Segundo Juvêncio Cardoso, coordenador regional da Nadzoeri (uma das cinco coordenações da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, a Foirn), seis comunidades já registraram alta no nível do rio e com prejuízo nas roças. São as comunidades de Canadá, Inambu, Macedônia, São Joaquim, Urumutum e Miriti. Todas no rio Aiari.”

Somadas àquelas do médio Içana e do rio Cubate (outro afluente, que desagua no baixo Içana), 29 famílias já perderam suas roças, num total de 46. “É uma perda significativa’’, ressalta o líder baniwa. “As famílias estão bastante preocupadas, já que nos próximos meses, próximos anos, até recuperarem suas roças, vai levar tempo, até porque nesse começo de ano as famílias não conseguiram queimar sua roça. Então, com essa enchente e as perdas, acaba agravando essa situação. Por isso é necessário um apoio mais contínuo, até que essas famílias consigam recuperar suas roças, o que pode demorar de três a cinco anos.”

Em relatório enviado para várias instituições locais na semana passada, Juvêncio resumiu o problema das chuvas intensas ao longo dos primeiros meses do ano: “O verão neste ano não aconteceu como esperado. Muitas famílias não conseguiram queimar suas roças. Isso vai comprometer a segurança alimentar nos próximos anos. O nível do rio na época de seca ficou em alto, levando à morte de minhoca ‘daracubi’ nas ilhas da foz do Içana. Dificultou e prejudicou a pescaria, pois não acontecem as piracemas [nível muito alto nos locais onde os peixes fazem seus ajuntamentos reprodutivos]. Sem poder arrumar cacuri [armadilha montada em certos locais na margem do rio], facilitou a proliferação de mosquito, teve aumento de casos de malária e aparecimento de doença de pele (coceira).”

Como ressaltado nos relatos dos AIMAs, os impactos das cheias na agricultura familiar levam anos para serem recuperados, considerando o tempo para preparação das áreas, plantio e crescimento dos cultivos usados na alimentação do dia a dia. A pesquisa e o monitoramento ambiental e climático feito pelos AIMAs no médio e alto rio Negro já vêm demonstrando há anos que uma das maiores vulnerabilidades trazidas pelas mudanças climáticas, em termos de segurança alimentar, é justamente o excesso de umidade nos meses do calendário econômico-ecológico em que se faz a queima de novas áreas para roças. Agravando essa situação, eventos mais extremos levam à perda de roças já maduras pela inundação. Essas mudanças climáticas impactam diretamente no calendário de manejo das comunidades e indicam a necessidade de adaptações mais estruturais.

Pesquisadores indígenas na Bacia do Rio Negro

Os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) são moradores de comunidades indígenas da bacia do rio Negro (municípios de Barcelos, Santa Isabel e São Gabriel da Cachoeira) envolvidos em projetos e atividades de manejo ambiental, pesquisas interculturais e gestão territorial para a proteção, monitoramento e sustentabilidade dos territórios indígenas.

Atualmente, 40 AIMAs formam uma rede de pesquisa e monitoramento ambiental e climática. Em alguns desses locais, os AIMAs já dispõem de acesso à internet, o que favorece alertas mais ágeis, como esse sobre as enchentes.

Os AIMAs também participam de iniciativas de colaboração entre pesquisadores indígenas e não-indígenas na produção colaborativa (intercultural) de conhecimentos, promovendo e trazendo para o primeiro plano os conhecimentos e experiências dos povos indígenas de seus territórios e seu manejo.

Para tanto, recorre a métodos simples de pesquisa dos ciclos anuais, desenvolvendo análises conjuntas, interculturais. Tem como horizonte a gestão ambiental e climática da bacia do rio Negro, com participação indígena efetiva.

O ISA tem como foco central a defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e aos direitos dos povos

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