Quilombolas do Vale do Ribeira (SP) mantêm tradição diaspórica de luta, ocupando espaços de poder e renovando a força do matriarcado africano

Por Andressa Cabral Botelho/ISA

A coletora de sementes Zélia Morato dos Santos Pupo em seu quintal, no Quilombo André Lopes, Vale do Ribeira (SP)|Bianca Tozato/ISA

Registro, onde está localizado o Vale do Ribeira, é a região administrativa com mais pessoas negras em São Paulo. Ali, 43,02% da população se declara preta ou parda, de acordo com a Fundação Seade.

No entanto, a sub-representação negra no estado em espaços de poder ainda é uma realidade, como na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), onde apenas 10 dos 94 deputados estaduais se autodeclaram negros.

Rompendo com a lógica colonial que coloca pessoas negras, principalmente mulheres, na base de uma pirâmide de opressões de gênero e raça, as quilombolas do Vale do Ribeira lideram em diversas frentes de atuação.

Mesmo com a distância continental e o apagamento de traços comuns, África e diáspora permanecem conectadas nos quilombos brasileiros graças ao exercício do matriarcado nas comunidades.

Se, pouco a pouco começamos a ver negros e negras ocupando espaços de poder, foi também porque mulheres e homens quilombolas fizeram e fazem o mesmo, no passado e no presente.

A herança do matriarcado

Historicamente, em diversas sociedades africanas as mulheres ocuparam posições políticas horizontais e até mesmo privilegiadas em relação aos homens. É o caso da Rainha Nzinga, de Angola e da Rainha Candace, da Etiópia.

No Brasil, essa força se verifica na dirigência de terreiros, como no de Mãe Beata de Iemanjá (RJ) e de Mãe Stella de Oxóssi (BA), na organização de movimentos negros, no caso da intelectual Lélia Gonzalez, e no samba e na política, como a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB-SP), primeira mulher a participar de uma ala de compositores na Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro.

“Pensar o matriarcado é entender que essa experiência não é exclusivamente africana, mas um legado de África para a afrodiáspora. E, o grande diferencial dessa experiência, é o fato de o matriarcado ter poder político, algo que a gente talvez ainda não perceba até hoje”, observa Aza Njeri, professora doutora em Literaturas Africanas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo o físico, historiador e antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop, um dos pioneiros nos estudos sobre matriarcado africano, em diversas sociedades as mulheres eram as “guardiãs da comida”, tendo papel importante no controle alimentar, no desenvolvimento agrícola e na distribuição da produção entre os produtores e mercados consumidores.

Se em países africanos as mulheres eram responsáveis pela produção agrícola e gestão alimentar, esse foi um valor civilizatório que não se perdeu durante o tráfico negreiro e se repete nos quilombos do Vale do Ribeira.

Sabedoria que vem da terra

Um desses exemplos de “guardiãs” é Tânia Heloísa Moraes, de 29 anos, que nasceu no Quilombo Ostra e hoje mora no Quilombo Sapatu, em Eldorado. Ela é conselheira fiscal na Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) e vê sua atuação como uma extensão de sua vivência no território.

Tânia Heloisa Moraes durante a campanha “Tá na hora da roça”|Claudio Tavares/ISA

“Busco ser uma liderança com conhecimento para me capacitar como mulher negra, mas também para valorizar o nosso trabalho, desde a roça dentro da comunidade à contribuição na organização e nas vendas. Nós, quilombolas, lutamos e resistimos a todo momento, na conquista pelo reconhecimento do território, que é nosso por direito, até a valorização da cultural tradicional e no querer plantar em busca da sobrevivência”, diz.

Além de servir para a subsistência das comunidades, os alimentos produzidos nas roças quilombolas do Ribeira eram, até março de 2020, destinados também à merenda escolar via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do Ministério da Educação (MEC). Com o início da pandemia e a suspensão das aulas, os contratos não foram continuados e ganharam outro destino: comunidades vulneráveis da capital e de outras cidades do estado.

As entregas acontecem graças à Cooperquivale, com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e de organizações nacionais e internacionais, que colocaram em ação um plano emergencial de escoamento da produção quilombola. De maio de 2020 até outubro de 2021, os alimentos cultivados pelas mãos das “guardiãs” alimentaram mais de 34 mil pessoas.

A participação feminina na Cooperquivale é um ponto de destaque. Entre as 248 pessoas cooperadas, 108 são mulheres, o que mostra que elas também participam ativamente das atividades agrícolas. As quilombolas tiveram papel fundamental no plano emergencial: das 1.477 pessoas envolvidas na distribuição de alimentos quilombolas, 54,5% são mulheres.

Tânia pensa sua atuação na Cooperquivale e em outros espaços que ocupa como um legado. “Ainda tenho muito a me capacitar, mas procuro ser espelho para mulheres e jovens quilombolas e meu filho Bernardo, que ainda é pequeno. Quero muito poder ver essa nova geração mais atuante e estar sempre na resistência e luta pelo território, como as nossas ancestrais”, conta.

Guardiãs do amanhã: Geisieli Carina, Eloá e Mariana Kerolin dos Santos Pupo, filhas de Zélia, do Quilombo André Lopes|Bianca Tozato/ISA

Segundo Fabiana Fagundes, assessora da Cooperquivale, “trabalhar com outras mulheres negras aflora a minha identidade e ancestralidade. Além disso, acredito que a participação das mulheres traz um olhar diferente nos espaços de decisão e, assim, elas buscam o fortalecimento no espaço familiar e na comunidade como um todo”.

Embora não seja quilombola, a agrônoma e mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural traz em sua trajetória a vivência com a terra desde antes da universidade, já que foi criada em um assentamento de reforma agrária de Itapeva (SP).

“O aprendizado [da universidade], associado aos conhecimentos tradicionais, me possibilitou um novo olhar para realidade das comunidades quilombolas e de diversos atores que se enquadram na categoria de agricultores familiares e comunidades tradicionais e seus modos de vida”, explica.

Cuidando das florestas do amanhã

Zélia Morato dos Santos Pupo é quilombola de André Lopes e, junto ao esposo Maurício Pereira Pupo, envolve as filhas nas atividades, que vai desde o cuidado com a roça, até o ensino das propriedades de ervas medicinais e a coleta de sementes florestais na Rede de Sementes do Vale do Ribeira.

Além de coletora, Zélia é um “elo”, ou ponto focal na comunidade, que faz os diálogos entre coletores e coletoras e a Central Administrativa, setor responsável por receber as sementes. Das quatro comunidades que fazem parte da rede — André Lopes, Bombas, Maria Rosa e Nhunguara — , três delas têm mulheres na liderança e organização.

Com a coletora, as filhas Mariana e Geisieli Pupo aprenderam a coletar sementes, entender a influência das mudanças de temperatura e chuvas e a relevância que é morar num local como o quilombo, em tempos de avanço de desmatamento.

“Plantar uma árvore é vida! Você respira um ar mais puro! A gente vai na cidade e percebe a diferença. Então, a gente quer cada vez mais tocar para frente essa ação de coletar semente”, afirma Zélia. Em 2021, mais de uma tonelada de sementes foi coletada nos quilombos da região.

Sementes coletadas por mulheres quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo|Bianca Tozato/ISA

As sementes coletadas por Zélia e outras coletoras e coletores do Vale do Ribeira vão para viveiros e projetos de restauração. Em quatro anos, o trabalho possibilitou a restauração de mais de 20 hectares de áreas degradadas anteriormente nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Dessa forma, os quilombolas, além de cuidar e preservar seus territórios, também fazem com que outras localidades possam renascer. “A gente é nascido e criado aqui, aprendeu com os nossos mais velhos a como cuidar da natureza. E se coletar sementes faz bem para a gente, por que não compartilhar com outras pessoas?”, pergunta a coletora.

Lideranças da nova geração

Em geral, nos quilombos, as escolhas profissionais se dão a partir da vivência com a terra e da identificação com as demandas locais. Existem várias formas de estar na luta pelo território, como pela Educação, Arte e Agricultura. E também pelo Direito.

É o caso de Rafaela Eduarda Miranda Santos, de 23 anos, do Quilombo Porto Velho, em Iporanga. Ela atua como advogada na Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras (EAACONE), dando suporte jurídico aos territórios do Vale do Ribeira.

“A EAACONE foi a entidade que assessorou a minha comunidade no processo de reconhecimento e identificação. Me sinto honrada por estar neste espaço promovendo e defendendo, na medida do possível, mais autonomia e conquistas para a população quilombola da região”, afirma a advogada.

Rafaela não é a única dentro de casa a aliar os ensinamentos do quilombo com os da academia. A irmã, Gabriele Miranda Santos, de 21 anos, estuda Pedagogia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e vê nas artes e na educação uma solução para permitir que as tradições permaneçam vivas entre os seus.

As irmãs Rafaela (E) e Gabriele (D), do Quilombo Porto Velho|Arquivo pessoal/Claudio Tavares/ISA

Mesmo jovem, ela já projeta futuras ações que gostaria de desenvolver em seu território. “Tenho alguns projetos para levar nossos saberes às futuras gerações que estão para ser gestadas, além de sonhar em transformar o território em museu, que carrega memória pelos seus espaços e tempos”, conta a estudante.

As duas também fazem parte do Fórum dos Povos e Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeira, onde têm a oportunidade de trocar saberes com outros povos tradicionais da região, como indígenas, caboclos e caiçaras.

Além disso, Gabriele integra a Rede de Comunicadores do Vale do Ribeira, que, aos poucos, vai amplificando as vozes dos territórios. “Os povos e suas cosmovisões precisam ser escutadas. É preciso fazer com que nossa voz ecoe nos quatro cantos do mundo. Essa é minha função, pois a cultura oral me foi passada”, conclui.

O ISA tem como foco central a defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e aos direitos dos povos

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